| O que é o yoga?
| História do Yoga | Período Védico | Período Clássico | Período Pós-Clássico
O que é o yoga?
O yoga é uma arte milenar que surgiu na Índia e que, nos últimos anos, tem tido uma enorme expansão no mundo ocidental.
A imagem que o yoga projecta é de posturas complexas e de grande flexibilidade. Porém, o yoga supera a forma, é a profunda transformação da pessoa através da transcendência do seu ego.
Por outras palavras, o yoga é a nossa aprendizagem, a nossa evolução, a redescoberta da nossa dimensão espiritual ao longo da dinâmica da vida: felicidade, insegurança, medo, amor, solidão, preguiça, prazer.
O Núcleo de Yoga de Almada propõe uma abordagem dinâmica desta modalidade, unindo a respiração com o movimento e escutando a inteligência do nosso corpo.
História do Yoga
O termo “hindu” tem origem na civilização que surgiu entre os rios Indo e Sarasvatî (este último que secou há séculos). O conceito de “hinduísmo” é utilizado para designar todo o conjunto cultural que tenha relação directa com os Vedas.
Muitos ainda sustentam que a origem do hinduísmo se deu através da invasão do sub-continente indiano pelos arianos vindos do leste europeu. Esta visão está cada vez mais desactualizada e os cientistas já possuem indícios que provam que a civilização ariana védica, que falava sânscrito, é a mesma que a civilização do Vale do Indo.
A civilização do Vale do Indo é considerada uma das civilizações mais antigas e situava-se no Punjab e foi descoberta na segunda metade do século XIX. Esta antiquíssima civilização da Índia foi encontrada na sequência de escavações levadas a cabo pela Inspecção Arqueológica da Índia (Sir John Marshal e R.D. Banerji). Os principais centros da civilização pré-ariana da Índia descobertos são Harappa (no Punjab Oriental) e o Mohenjo-Daro (no Sind), actualmente ambos no Paquistão. Ambos estavam situados no curso de antigos rios e possuíam casas de vários andares, solidamente construídas e de grandes dimensões, com fontes, esgotos, casas de banho, etc.
Hoje em dia, a antiga civilização do Vale do Indo, é mais conhecida por civilização Harappeana e foi uma civilização relacionada com as origens do Yoga, pois encontraram-se diversos vestígios arqueológicos que demonstram que este povo era shivaísta (Shiva – o criador do Yoga).
Actualmente a data aceite para a origem do hinduísmo é de 7000 a.C. com o surgimento e a predominância dos ensinamentos da sabedoria védica, apesar das escrituras hindus relatarem factos ocorridos há mais de 300 000 anos.
Período Védico
No Período Pré-Védico (6500 a.C. a 4500 a.C.), a civilização do Vale do Indo estava em franco desenvolvimento, com cidades que continham até 20.000 habitantes, ricas na agricultura, no artesanato e com um comércio relativamente desenvolvido.
O Período Védico consiste num momento da história da Índia, desde 4500 a.C. a 2500 a.C., que teve início quando um povo oriundo da Europa Central denominado ârya (ou arianos) migrou para o norte do Himalaia. Os arianos, de origem indo-europeia conquistaram a região do norte da Índia.
O sub continente indiano sofreu mudanças climáticas causadas em parte pelo movimento de placas tectónicas no decorrer de vários séculos. Uma das consequências destes movimentos foi a seca total do rio Sarasvatî, quando dois dos seus principais afluentes passaram a desaguar no famoso rio Ganges (Gangâ).
Com esta ocorrência a população estabelecida nas margens do rio Sarasvatî deslocou-se para a fértil e aconchegante planície do Ganges dando início à Era Védica.
O Período Védico é assim denominado porque foi nesta época que os Vedas foram compilados. Os Vedas, os primeiros 4 livros religiosos do Hinduísmo, escritos em sânscrito, são antologias de textos cuja data de criação é impossível de precisar.
A palavra “Vedas” vem do sânscrito e tem como raiz “Vid” que pode ser traduzida como “conhecimento”. Assim, os Vedas são o compêndio da sabedoria revelada directamente pelo plano espiritual superior.
O estudo do Hinduísmo pode ser dividido em dois grupos de escrituras: Shruti e Smriti.
Shruti (do sânscrito “aquilo que é ouvido”) engloba os textos mais antigos (1000 a.C.) e é formado por quatro Vedas (RigVeda, SamaVeda, YajurVeda e AtharvaVeda), no entanto não data um período particular mas atravessa a história inteira do Hinduísmo, começando com os textos mais antigos conhecidos, alguns Upanishades mais recentes, chegando até aos tempos modernos. Refere-se à tradição oral, em que o ensinamento era transmitido de boca a ouvido, ou então ao facto de essas escrituras terem sido recebidas através de revelação, por meio da qual os rishis “ouviram” os textos.
Smriti é a divisão mais recente, sendo que a maior parte dos textos têm pouco mais de 2000 anos. Smriti significa memória, referindo-se provavelmente às recordações posteriores daquilo que o Shruti ensinara no passado remoto. Fazem parte do Smriti: Smiriti, Itihasas, Puránas, Ágamas e Darshanas.
Rigveda – Hinos compostos em forma poética para a recitação em sacrifícios.
O Rigveda, Livro dos Hinos, é o Primeiro Veda e é, com certeza, o mais importante veda, pois todos os outros derivam dele, sendo assim o mais antigo documento da literatura hindu. É composto por 1.028 hinos, rituais e oferendas de sacrifícios. Passagens geográficas e etnológicas no Rigveda provêem evidência de que o Rigveda foi escrito por volta de 1700-1100 a.C. durante o período védico em Punjab (Sapta Sindhu).
Samaveda – Versos para serem cantados, em grande parte do Rigveda.
O Samaveda, é o terceiro, na ordem normal dos 4 Vedas. O Samaveda fica em segundo lugar na santidade e importância litúrgica depois do Rigveda. Consiste principalmente em hinos a serem cantados pelos sacerdotes Udgatar na execução destes importantes sacrifícios. A colecção é feita de hinos, porções de hinos e versos destacados, tirados principalmente do Rigveda, transpostos e reorganizados, sem referência à sua ordem original, para adaptarem-se às cerimónias religiosas nas quais eles eram empregados.
Yajurveda – hinos em prosa para recitação em voz baixa durante os sacrifícios.
O Yajurveda contém textos religiosos com foco na liturgia, rituais e sacrifícios, e como executar os mesmos.
Atharvaveda – Fórmulas de encantamento para a cura.
O Atharvaveda é o quarto Veda. De acordo com a tradição, o Atharvaveda foi principalmente composto por dois grupos de rishis conhecidos como os Bhrigus e os Angirasas.
Os Vedas por sua vez ainda se subdividem em Mantras, Brahmanas, Aranyakas e Upanishades.
Os Mantras são poemas religiosos e os Aranyakas são textos que provêm de um grupo de filósofos e escritores que viviam na floresta e falam sobre as cerimónias místicas e seu sentido. Os Brahmana são textos que completam os vedas, constituem textos de geneologias e os Upanishad são textos que falam sobre metafísica e sobre o sacrifício interno.
Período Clássico
O período clássico do Yoga abrangeu os períodos: budista, muçulmano e mongol da história da Índia. O período budista caracterizou-se pela conversão do povo indiano às doutrinas do Gautama Buda (no séc. V a.C.), pelas invasões de Alexandre Magno (327-325 a.C.) e pela ascensão dos Maurias (321-185 a.C.). Mais tarde surgem os Guptas (319-450 d.C) responsáveis pela idade de ouro, pois foi durante esta época que a cultura e os valores sociais e religiosos bramânicos se estabeleceram firmemente. No século X os árabes fazem algumas invasões ao noroeste da Índia e, no século XIV foi a vez do mongol Baber tomar Kabul e o Punjab.
O período clássico do yoga é também chamado de yoga-darshana, ou sistema filosófico do yoga e é marcado pelo Yoga-Sutra de Patanjali. O livro foi escrito por volta do século II d.C. e é composto por 195 aforismos que falam do Raja Yoga (yoga mental) e dos princípios que lhe estão subjacentes - os oito ramos do yoga:
• Yama – refreamentos,
• Nyama – observâncias,
• Asana – postura,
• Pranayama – disciplina do sopro,
• Pratyahara – retracção dos sentidos,
• Dharana – fixação da atenção,
• Dhyana – continuidade da concentração,
• Samadhi – êxtase.
O Yoga-Sutra baseia-se no dualismo da filosofia Samkhya e defende que cada indivíduo é composto de prakriti (matéria) e purusha (espírito). Nesta fase não é mencionada a união com a realidade transcendente, ao contrário do que acontece nos períodos pré-clássico e pós-clássico.
Patanjali define o yoga como o cessar das modificações da mente, ou seja, focar a atenção no objecto que está a ser contemplado e excluir todos os outros. Deste modo impede-se que os pensamentos surjam e todo o corpo é aquietado. Quando há a paragem do estado psico-mental surge a super consciência que vai para além dos sentidos e da mente, a verdadeira Identidade.
Período Pós-Clássico
O período pós clássico é marcado pela visão não dualista (advaita). Para os sábios do Vedânta, a metafísica era a busca da explicação racional da realização do ser único, âtman ou brahman. É difícil determinar uma data precisa para o declínio do Yoga Clássico, representado por Patanjali, para dar inicio ao período pós clássico mas pensa-se que se situe entre II d.C e o século VII d.C.
O yoga pós clássico refere-se a todos os movimentos espirituais e escolas yoguicas que foram emergindo após o tratado de Pantajali. As correntes espirituais pós clássicas são uma tentativa de reinterpretação do Yoga Sûtra de Pantajali na medida em que tentam adaptar a teoria das oito etapas yoguicas, de uma forma geral aceite por todas as escolas e correntes de pensamento, a uma filosofia não dualista do universo.
A literatura do período pós clássico engloba a literatura tântrica, os Puránas, os Yoga-Upanishads, os textos referentes ao hatha yoga, as escrituras vedânticas e a literatura do bhakti-márga. É também um período sectário visto que viu nascer tradições religiosas sectárias hinduistas que adquiriram uma importância considerável na Índia como o Shivaismo, o Vishnuismo e o Shaktismo.
Outro dos acontecimentos de grande importância que marcou este período foi o desenvolvimento de uma cultura yoguica baseada no corpo iniciada pelo movimento tântrico e pela corrente de hatha yoga dele derivada. Os escritos tântricos incluem os Ágamas ou tradições redigidas pelos shaivas (deus Xixa), os tantras ou fusos escritos pelos shaktas e os Shástras. Os shaivas e os shaktas pertencem a duas das quatro escolas primárias do hinduismo, o shaivismo (devoção a Shiva) e o Shaktismo (devoção a Shakti ou Devi). As outras duas escolas são o Vaishnavismo (devoção a Vixnu) e o Smartismo (baseado nos Vedas e nos Shastras).
O shaivismo é considerado uma escola de esquerda porque defendem a vivência literal da verdade suprema da não dualidade, ao passo que, genericamente, as escolas da direita só admitem que essa verdade seja expressa simbolicamente. Por exemplo, em relação à sexualidade, as escolas da esquerda usam-na para a transformação espiritual enquanto que as escolas da direita vêm a sexualidade como uma ameaça ao progresso espiritual.
O Vaishnavismo teve como base o Rig Veda e, mais tarde, o Bhagavad- Gîtâ. Este último inspirou a poesia dos Âlvârs e dos Bauls, o Bhâgavata-Purâna, o Gîtâ-Govinda entre outros Gîtas.
No início da era cristã foram criados os Samhitâs ou colecções divididas em quatro secções: jnâna-pâda (que trata da metafísica e da sabedoria), yoga-pâda (que apresenta tecnicas yoguis), kriyâ-pâda (que regulamenta a construção de templos e a criação de imagens sagradas) e caryâ-pâda (ligada às praticas religiosas ou rituais).
Os Puránas são enciclopédias populares que contêm breves discursos sobre o yoga e historias de aspirantes e mestres que tinham o intuito de divertir, edificar e explicar as doutrinas e as praticas sagradas. Os textos foram transmitidos por contadores de historias (suta) fora das rotas bramânicas ortodoxas.
O hatha yoga ou yoga da força é uma forma de yoga pós clássico que se desenvolveu sob a influência do vedânta bem como das ideias do Nathismo, escola de Kaula Tantra cujo fundador é o lendário sábio Matsyendranatha. Nesse método o foco das práticas passa a ser o corpo usado como ponto de partida para a investigação das realidades mais subtis e profundas dessa unidade chamada ser humano. Os aspectos não visíveis do ser humano acima mencionados são o corpo subtil (pranamaya kosha), os centros e canais de energia (chakras e nadis) o potencial psico espiritual (kundalini) os poderes psíquicos (siddhis) a reflexão sobre a verdadeira natureza do Ser (atma) e a sua relação com o mundo (jagat).
Até o surgimento desse método de yoga que, aliás, é até hoje o mais conhecido e popular, visão que se tinha sobre o corpo humano no mundo da espiritualidade indiana era desabonadora e negativa. O corpo era considerado apenas uma bolha de pele recheada de carne, ossos, secreções e impurezas, fonte de sofrimento, do apego e da dor.
O hatha yoga rejeitou essa visão desde o início, unificando a visão tantrica do corpo como templo da divindade com a constatação vedântica de que tudo o que existe na criação é expressão do ser que é ao mesmo tempo criador e agente material da criação. Assim, este método busca conquistar um estado de perfeição corpórea chamada “corpo adamantino” (vajra deha), ou “corpo divinal” (deva kaya) e combinar essa perfeição física com um aperfeiçoamento similar nas dimensões subtil, emocional, mental e psíquica, para a realização do supremo propósito de todas as formas de yoga: a libertação da ignorância metafísica (avidya), dos condicionamentos e do ciclo de mortes e renascimentos sucessivos (samsara).
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